Este texto nasce da vontade de ampliar a escuta de “Baía de Guanabara” e compartilhar um pouco dos sentidos que atravessam a música. Mais do que uma explicação fechada, ele parte de dentro da nossa experiência enquanto banda e enquanto sujeitos atravessados pelas mesmas realidades que a faixa tenta expressar.
Entre idas e vindas, “Baía de Guanabara”, oitava faixa do álbum Retratos de uma Velha Juventude, emerge como expressão das marcas, deslocamentos e contradições que atravessam nossas vidas enquanto jovens periféricos tentando existir em meio ao cotidiano desgastante do Rio de Janeiro.
Num ônibus sujo penso ver minha miragem
Eu sinto o cheiro da Baía
O peixe morto me remete ao passado
memórias fedem a carniça.
A música opera numa tensão constante entre pertencimento afetivo e deterioração social, utilizando a Baía de Guanabara não apenas como cenário geográfico, mas como símbolo histórico. As imagens do ônibus, do peixe morto e do cheiro de carniça transformam a paisagem urbana em experiência emocional, conectando nossas memórias, abandonos e desgastes cotidianos numa mesma atmosfera melancólica.
Com o crescimento da região metropolitana ao longo do século XX, quem vivia às margens da Baía passou a ocupar um lugar contraditório dentro da própria cidade. Mesmo fazendo parte do funcionamento econômico do Rio todos os dias, continamos invisíveis no imaginário construído sobre ele. Enquanto o cartão-postal continua sendo vendido para o mundo, nossas ruas, nossos bairros e nossas vivências sobrevivem à margem dessa imagem oficial.
Trocar de pele não resolve o meu problema
Eu nunca perco essa mania
Minha ilusão era viver sem minhas marcas
O ponto cego que me guia.
É justamente desse “lado invisível”, marcado pelas idas e vindas e pelas experiências vividas à margem, que buscamos falar.
Crescemos vendo venderem uma ideia de Rio de Janeiro que nunca pareceu incluir a gente. O cartão-postal sempre foi a praia, a zona sul, a paisagem bonita vista de longe. Mas, daqui das margens, o que sobra é outra cidade: ônibus lotado, distância, cansaço, abandono e a sensação constante de viver num lugar que ninguém quer enxergar de verdade.
Frente a isso, “Baía de Guanabara” surge como um desabafo, olhando justamente para esse cotidiano que quase nunca vira fotografia turística. A música fala de uma juventude que aprendeu a conviver com frustração, deslocamento e silêncio dentro de uma cidade feita para impressionar quem passa, mas dura demais para quem tenta viver nela todos os dias.
Mais do que falar sobre um lugar, “Baía de Guanabara” acaba sendo a forma que encontramos de colocar para fora tudo aquilo que atravessa a nossa geração. Crescemos observando de longe o brilho do cartão-postal enquanto convivemos, todos os dias, com as ruínas sociais escondidas atrás dele. Talvez essa música exista justamente por causa dessa distância: a de quem vive na mesma cidade, mas nunca parece fazer parte da imagem que fazem dela.

